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DO MAINFRAME AO MULTI-CLOUD

10 de abril de 2026

DO MAINFRAME AO MULTI-CLOUD

A história da tecnologia nas empresas não é uma sequência de substituições simples, em que uma geração elimina completamente a anterior. Na prática, a evolução da infraestrutura corporativa costuma ser cumulativa. Novas camadas surgem, novos modelos ganham força, mas sistemas críticos continuam existindo e, muitas vezes, sustentando o núcleo da operação. É nesse contexto que faz sentido olhar para a jornada do mainframe ao multi-cloud não como uma troca de extremos, mas como a trajetória de amadurecimento da arquitetura empresarial, que saiu de ambientes altamente centralizados para ecossistemas distribuídos, híbridos e cada vez mais orientados por integração.

O mainframe ocupa um lugar central nessa história. A IBM aponta o System/360, lançado em 1964, como o primeiro mainframe moderno e destaca que ele estabeleceu um novo padrão ao separar software e hardware dentro de uma mesma linha de sistemas, permitindo compatibilidade entre máquinas da mesma família. Esse movimento ajudou a consolidar o processamento corporativo em larga escala e a criar uma base tecnológica para operações de alta criticidade. Décadas depois, a própria IBM continua posicionando o IBM Z como plataforma voltada a infraestrutura segura, resiliente e rápida para transformação digital, com foco em cargas críticas e continuidade operacional.

Esse ponto é importante porque o mainframe, muitas vezes, é tratado de forma caricata, como sinônimo de tecnologia ultrapassada. Mas os documentos atuais da IBM mostram um posicionamento diferente: o mainframe segue associado a grandes volumes de transações, disponibilidade elevada, integração com práticas modernas de DevOps, observabilidade e ambientes híbridos. Em vez de representar apenas o passado da computação corporativa, ele permanece, em muitos setores, como parte do presente, especialmente em operações nas quais confiabilidade, desempenho transacional e proteção de dados são inegociáveis.

Ao longo do tempo, no entanto, as necessidades das empresas deixaram de caber em um único modelo de infraestrutura. A digitalização ampliou a diversidade de aplicações, aumentou a necessidade de integração entre canais, acelerou ciclos de entrega e exigiu mais elasticidade operacional. É nesse cenário que a computação em nuvem se consolida. O NIST define cloud computing como um modelo que viabiliza acesso sob demanda, conveniente e ubíquo, a um conjunto compartilhado de recursos configuráveis, que podem ser rapidamente provisionados e liberados com mínimo esforço de gestão. Essa definição ajuda a entender por que a nuvem se tornou tão relevante para o ambiente corporativo: ela reduz fricção operacional e aumenta a capacidade de responder com velocidade às necessidades do negócio.

Mas a adoção da nuvem não produziu um destino único. Em vez de migrar tudo de forma linear para um único provedor, muitas organizações passaram a combinar ambientes on-premises, nuvens privadas, nuvens públicas e serviços especializados de diferentes fornecedores. É nesse ponto que entra o multi-cloud. A Microsoft descreve multi-cloud como um ambiente em que a empresa escolhe diferentes provedores conforme critérios como desempenho, custo, conformidade, oferta de serviços ou disponibilidade geográfica. A Red Hat resume a ideia como uma abordagem composta por mais de um serviço de nuvem, de mais de um fornecedor, público ou privado. Já a Oracle reforça que essa estratégia costuma ser orientada por requisitos de carga de trabalho, negócios e governança de dados.

Essa evolução muda a forma de pensar arquitetura. No passado, a pergunta principal podia ser qual plataforma central suportaria a operação. Hoje, a questão é mais ampla: onde cada carga de trabalho faz mais sentido, como os ambientes se conectam, como os dados circulam, como a segurança é mantida e como a governança acompanha a complexidade. O foco deixa de ser apenas infraestrutura e passa a incluir portabilidade, integração, observabilidade, resiliência e coerência operacional entre ambientes diferentes. O próprio Google Cloud trata multi-cloud como um caminho para modernizar aplicações e gerenciar apps e dados em diferentes ambientes, enquanto sua documentação de arquitetura descreve o multi-cloud como um arquétipo com casos de uso e considerações próprias de desenho.

É importante notar, porém, que multi-cloud não deve ser confundido automaticamente com maturidade. Usar mais de um provedor não é, por si só, uma estratégia melhor. Em muitos casos, pode até ampliar a complexidade desnecessariamente. O valor do multi-cloud aparece quando há justificativa clara, como exigências regulatórias, necessidade de reduzir dependência excessiva de um único fornecedor, busca por melhor aderência técnica para workloads específicos ou demanda por presença geográfica e serviços especializados distintos. Quando essa decisão não é guiada por arquitetura e governança, a empresa corre o risco de multiplicar custos, ferramentas, integrações e pontos de falha sem capturar benefícios reais.

Nesse percurso, um ponto merece destaque: a passagem do mainframe ao multi-cloud não significa abandono do legado, mas redefinição de seu papel. A IBM posiciona o IBM Z como parte da estratégia de hybrid cloud e destaca integração com Red Hat OpenShift e workloads modernos. Isso mostra que a transformação corporativa não acontece, necessariamente, pela substituição brusca dos sistemas centrais, mas pela capacidade de conectá-los a novos serviços, canais, APIs, modelos analíticos e aplicações distribuídas. Em muitos cenários, a modernização mais eficiente não é arrancar o núcleo transacional, mas expô-lo, integrá-lo e cercá-lo de novas capacidades com segurança e produtividade.

Essa leitura também ajuda a corrigir um equívoco comum no discurso sobre inovação. Muitas vezes, a tecnologia mais visível recebe toda a atenção, enquanto os fundamentos que sustentam a operação ficam invisíveis. Mas transformação digital real não se resume a adotar nuvem, containers ou inteligência artificial. Ela depende da capacidade de articular o novo com o que já funciona, de proteger dados críticos, de manter continuidade operacional e de construir uma arquitetura que suporte evolução sem comprometer estabilidade. Por isso, a conversa sobre multi-cloud precisa incluir não apenas flexibilidade e escala, mas também governança, integração e clareza sobre o papel de cada ambiente no ecossistema corporativo.

Para as empresas, a principal lição dessa trajetória é estratégica. O debate não deve ser conduzido em termos de “antigo versus moderno”, mas de adequação ao negócio. Mainframes continuam relevantes em contextos de missão crítica e grande volume transacional. Nuvens públicas oferecem elasticidade e velocidade. Ambientes híbridos permitem compor diferentes necessidades. Estratégias multi-cloud podem ampliar opções e reduzir dependências, desde que sustentadas por desenho consistente. O desafio contemporâneo não está apenas em escolher tecnologias, mas em orquestrá-las de forma coerente, segura e eficiente.

Olhar para essa evolução é reforçar uma visão prática de inovação. Modernizar não significa descartar tudo o que veio antes, nem adotar tendências apenas por pressão de mercado. Significa entender o valor do legado, reconhecer os limites e oportunidades de cada arquitetura e construir caminhos de evolução que façam sentido para a operação, para a governança e para os objetivos do negócio. Do mainframe ao multi-cloud, a tecnologia corporativa mudou muito. Mas a questão central continua a mesma: Como usar infraestrutura e arquitetura para sustentar crescimento, confiança e capacidade de adaptação.

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